652 mortes em 34 anos e a “síndrome do céu azul’’

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  • 24/fev 09:00
    Por Estela Siqueira, especial para a Tribuna
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    Depois de nove dias de busca por sobreviventes, Petrópolis começa a conhecer a dimensão de sua pior tragédia: 204 vidas perdidas e outras 51 ainda desaparecidas. Em 34 anos, desde o trágico 5 de fevereiro de 1988, as sucessivas chuvas deixaram 652 mortos na cidade. E a pergunta que todos nos fazemos é ´porque não há uma solução nem mesmo em longo prazo?’. O bispo de Petrópolis, Dom Gregório Paixão, em uma fala precisa diante de autoridades municipais, estaduais e federais, reunidas no Palácio Quitandinha, quando estava sendo formada uma força-tarefa para socorro a cidade, traduziu com uma expressão o esquecimento, quando Petrópolis volta a ter dias ensolarados.

    “Vivemos a síndrome do ‘céu azul’ em Petrópolis. Depois que a chuva, a catástrofe passa, depois de alguns meses, a gente sofre dessa síndrome, ou seja, a vida volta mais ou menos à normalidade e as coisas muitas vezes são esquecidas”, disse o bispo.

    Entre o final dos anos 80’s e a metade dos anos 90’s, em 1995, Petrópolis soma 197 mortes. Em 1988, que foi considerada a maior tragédia da cidade, até então, foram 171 mortes.

    Entre 1998 e 2000, a cidade viveu quase que um ‘intervalo’ sem sofrimento de perdas de vidas, com registro apenas de inundações e deslizamentos.

    Mas, entre 2001 e 2003 voltou a ser alto o saldo das chuvas. Em 2001, às vésperas do Natal, dias 23 e 24 de dezembro, foram 57 mortes. No ano seguinte, apenas dois meses depois, em fevereiro, mais 50 corpos. E em 2003, foram dois episódios em janeiro e abril, que resultaram em 17 mortes. No total, em três anos, 124 vidas perdidas.

    A chuva volta a dar uma trégua entre 2004 e 2010, mas foram perdidas 12 vidas: três em 2007 e nove em 2008, com estragos materiais de novo com rios transbordando e morros cedendo.

    Mas, ainda o pior estava por vir em 11 de janeiro de 2011 com 73 mortos, resultado de uma chuva de no Vale do Cuiabá, que atingiu também outras sete cidades Serranas, principalmente Teresópolis e Nova Friburgo, somando 918 mortes. O número pode ser ainda maior porque nem todos os corpos podem ter sido achados. A Região Serrana teve as atenções e solidariedade de todo o país pela dimensão da tragédia. Mas, logo os holofotes sobre a área foram desligados.

    Mal havia se recuperado de 2011, ainda sem ter dado casas aos desabrigados, uma nova chuva, em 2013, levou embora mais 33 moradores da cidade. A chuva atingiu com força a vizinha Xerém, mas houve mais sorte por lá: apenas um morto.

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    Em oito anos, de 2014 a 2021, foi um longo período com poucas perdas, com óbitos registrados em 2016 (02 mortes) 2017 (1 morte) e 2018 (4 mortes). É nestes períodos quando a chuva vem forte e traz inundações e barreiras, mas sem ‘gravidade’ (em termos, porque toda vida importa) é que a cidade ‘esquece’ do risco.

    O período de trégua acabou no dia 15 deste mês e a cidade já soma 204 mortes e pelo menos 51 desaparecidos. Supera a tragédia de 1988 e a de 2011. E sobre este lapso de desastres que o bispo Dom Gregório Paixão apelou não apenas às autoridades, mas a todos nós:

    “Peço encarecidamente que todos nós tenhamos esse cuidado de não sofrer da síndrome do céu azul. A gente viu isso na catástrofe de 2001, muitas coisas foram esquecias; na de 2013 e até mesmo em 2018, no Caxambu. A gente não pode esquecer. A memória é um ponto fundamental e as pessoas esperam de nos uma resposta que seja contínua”, apelou Dom Gregório.

    Chuvas fizeram 652 vítimas em 16 anos desde 1988:

    1988 – 171 mortes

    1992 – 23 mortes

    1994 – 1 mortes

    1995 – 2 mortes

    2000 – 2 mortes

    2001- 57 mortes

    2002 – 50 mortes

    2003 – 17 mortes

    2007 – 3 mortes

    2008 – 9 mortes

    2011 – 73 mortes

    2013 – 33 mortes

    2016 – 02 mortes

    2017 – 1 mortes

    2018 – 4 mortes

    2022 – 204 mortes*

    *número atualizado até 23 de fevereiro de 2022.

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