A crônica no samba

18/03/2018 08:00

A discussão sobre a função da arte vem de longos tempos. Desde Platão, Aristóteles, questiona-se a finalidade da produção artística, além do conceito de belo. 

Na era primitiva, o homem já se preocupava com a transcrição do real. As pinturas rupestres são exemplos da inquietação que o leva a criar ora imitando a natureza, ora explorando o inconsciente que se manifesta em expressões abstratas com uma carga imensurável de significações. 

 Ninguém é capaz de prever as possíveis interpretações da arte que produz. Quando uma expressão artística atinge certo padrão de qualidade ganha uma dimensão que vai além da sua época, pois permanece na memória do povo. 

A arte vai além da existência do artista.  Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Shakespeare, Fernando Pessoa, Frida Kahlo…, pela Terra passaram várias pessoas, cujas obras ainda são objetos de estudos, pois são inesgotáveis. Dedicação, comprometimento social levaram-nas ao reconhecimento universal.

 A busca da perfeição é infinita, embora o superar-se seja o primeiro desafio. Acomodar-se com a mediocridade é estagnar. Vê-la comercializada e imposta no gosto popular pela massificação da mídia nos entristece. Resta-nos o consolo do tempo que coloca na lata do esquecimento as inconsistências. 

Puxei esse assunto, por achar preocupante a qualidade das músicas divulgadas na mídia. Neste delicado momento, em que a violência atinge índices alarmantes, a corrupção comprometendo os serviços públicos, encontramos composições agressivas que fazem alusões ao estupro, ao consumo de drogas. Outras não apresentam o menor compromisso com a qualidade, nem com os problemas sociais. 

A irreverência também requer competência. Buscar excentricidade pelo ridículo é expor-se ao demérito. 

Admiro os compositores que expressam os anseios do povo, utilizam o talento em defesa de questões sociais, apesar das consequências que isso acarreta. Muitos já sofreram, porque usaram a arte com posicionamento crítico.

Gosto das canções que retratam a realidade com humor em consonância com o desejo popular. Antes da Operação Lava Jato, o grupo Exporta Samba, em 1981, gravara a música “Reunião de Bacana”, de Ari do Cavaco e Bebeto Di São João, na qual há o conhecido verso “se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão. ” 

Adoniran Barbosa, em “Saudosa Maloca”, música lançada em 1951, retratou a questão da desapropriação na capital paulista.  Moreira da Silva, em 1959, gravara “Cidade Lagoa”, música de Cícero Nunes e Sebastião Fonseca, que aborda o problema das enchentes no Rio: 

“Esta cidade, que ainda é maravilhosa,/ Tão cantada em verso e prosa,/ Desde os tempos da vovó./ Tem um problema, crônico renitente,/ Qualquer chuva causa enchente.”

Noel Rosa também narra, pela ótica popular, problemas vividos pelos cariocas:

“Nesta cidade todo mundo se acautela/ Com a tal de febre amarela que não cansa de matá/ E a dona Chica que anda atrás de mal conselho/ Pinta o corpo de vermelho/ Pro amarelo não pegá/”

Luiz Gonzaga, em parceria com Humberto Teixeira, compôs “Assum Preto”, uma denúncia contra a perversidade feita com as aves: “Tarvez por ignorança/ Ou mardade das pió/ Furaro os óio do Assum Preto/ Pra ele assim, ai, cantá mió”.

Se o funk tivesse seguido na trilha do “Rap do Silva”, lançado em 1995, por Mc Marcinho, talvez tivesse mais adesão dos movimentos populares: “Era só mais um Silva que a estrela não brilha/ Ele era funkeiro, mas era pai de família.”

A erotização foi uma bala perdida na cabeça dos trabalhos sociais que poderiam ser feitos a partir desse gênero musical.

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