Cine Muda: Metropolis, Fritz Lang

05/02/2021 16:04
Por Maitêus*

O personagem principal desta obra é um jovem, filho de magnata, vivendo numa cidade futurista. Seu destino natural e idílico é modificado ao se apaixonar por uma professora dos filhos da classe trabalhadora, o que o faz persegui-la até o subsolo da cidade e se deparar com o distrito industrial de Metropolis. Neste lugar as pessoas têm menos horas por dia, não veem a luz do sol, trabalham até o completo esgotamento de suas energias estando sujeitas ao sacrifício dos próprios corpos em nome do funcionamento perfeito da cidade acima deles. A visão que o rapaz tem neste lugar, em completo contraste com os lugares que as pessoas de sua classe frequentam, o faz se interessar não apenas pela professora, mas agora por toda aquela gente que ele chama de irmãos. Resolve, então, assumir o posto de um dos trabalhadores para sentir na pele o que é que seu pai tem feito com aquelas pessoas. 

Neste ponto já podemos perceber uma clara referência bíblica a figura do Cristo que desce do seu paraíso eterno e encarna na humanidade para sofrer as angústias que seu pai determinou no momento da expulsão do Éden. Em certo ponto, enquanto trabalha alucinadamente movimentando os ponteiros de uma espécie de relógio, como se estivesse pregado numa cruz com braços móveis, Freder – o protagonista -, suplica, dizendo “Pai, dez horas não chegam nunca?”, numa frase facilmente relacionável à dita pelo Jesus pregado no seu momento de maior dor: “Pai, porque me abandonaste?”. 

Apesar da metáfora cristã, a ordem cronológica deste cristo figurativo não reproduz a do original, já que muito tempo depois de ter sido crucificado no relógio é que Freder se descobre o messias daquela gente, quando Maria, a professora por quem Freder se apaixona e também a profetisa da classe trabalhadora, chama-o de conciliador. O nome de Maria talvez se remeta tanto a Madalena quanto a mãe de Jesus, simultaneamente. Da primeira ela traz a sedução que movimenta o protagonista em sua jornada, sendo carnalmente desejada por ele, enquanto da segunda esta Maria carrega a pureza que a legitima enquanto anunciadora da profecia. É verdade também que ao ser clonada no corpo de um robô – numa das cenas mais memoráveis deste filme -, essa cópia assume muito mais a postura de Madalena, como uma prostituta que seduz os burgueses e engana os trabalhadores, enquanto a Maria original mantém toda sua pureza auxiliando as crianças a fugirem da enchente. Essa dicotomia entre Maria e a sua representação robótica é responsável por colocar em choque duas visões de sociedade distintas. Maria carrega a palavra da conciliação entre as classes em conflito, enquanto sua cópia robótica leva a burguesia aos pecados e os trabalhadores à revolta, e a necessidade de conter a revolta dos trabalhadores diante de um processo violento de exploração, a fim de que a sociedade não se destrua, é a mensagem mais clara do filme.

Diante deste perfil simbólico do qual o filme é permeado, começa também a se desenhar a sua veia ideológica, que por sinal é fortíssima e bastante explícita. Se até então fomos apresentados a um messias ao longo do filme, não podemos ignorar que este messias vem para salvar uma classe social, portanto um ente político e não religioso. O messias da classe trabalhadora, vindo de cima desta, ou seja, da burguesia, surge não para libertar a classe da opressão sofrida, opressão que o filme mesmo retrata, mas sim para conciliá-la com o seu oposto, a burguesia, para trazer paz entre essas duas classes que vivenciam historicamente um embate. O que é proposto em Metropolis, em última instância, é a resolução da luta de classes sem, no entanto, ocorrer a superação da exploração de uma classe pela outra. Esse messias político, pretensamente conciliador entre as classes em guerra, apresentado em película e exibido em tela grande pela primeira vez em 1927 na Alemanha emergiu enquanto ser político real seis anos depois neste mesmo país. 

Para corroborar com a mensagem do trabalhador organizado em torno de sua revolta como ameaça social, ao longo de todo o filme vai sendo construída a ideia do trabalhador como sujeito irracional, incapaz de tomar decisões coletivas que beneficiem a sociedade. Vemos essa mensagem se consolidar logo no início, quando Freder troca de função com o trabalhador número 11811 e lhe dá instruções de para onde deveria ir e com quem falar. Aqui já é pintada uma caricatura do operariado, já que o rapaz se vê seduzido por uma mulher e atraído a um salão de festas, de modo que sua atitude acaba por estragar o plano de Freder. Fica determinado que Freder não poderia contar com a ajuda dos próprios trabalhadores para serem ajudados, ele teria que fazer tudo sozinho para ajudar toda a classe trabalhadora a resolver seus problemas. Acontece que, no filme, os problemas da classe trabalhadora jamais são resolvidos, o maior problema de acordo com a mensagem por ele veiculada não é a opressão sofrida pelos operários, e sim a ameaça constante de revolta e desestabilização da sociedade que eles representavam. Essa ameaça é contida no final mediante a lição de moral compreendida pelos trabalhadores após a tragédia que colocou a vida de suas crianças em risco.

O outro lado da luta de classes, a burguesia, tem lá seus problemas ao longo da narrativa, mas apesar disso há uma aproximação afetiva muito maior aos burgueses do que aos proletários no filme. Vemos isso no protagonista e na maior parte do elenco principal que gira em torno dos dilemas desta classe. A função social que o filme concede à burguesia também é denunciadora dessa preferência ao mundo das elites. No filme, a elite econômica de Metropolis é considerada o cérebro que organiza a sociedade, em contraponto com os trabalhadores que são meras mãos executoras de tarefas. Ao reduzir uns a cérebros e outros a mãos, Metropolis evidencia uma visão de sociedade elitista, mas ao problematizar os costumes gananciosos e egoístas da burguesia que ameaçam a vida dos trabalhadores, talvez camufle essa preferência. Apesar da crítica a degeneração burguesa, o filme, em concordância com o nacionalismo que evoca, enxerga nesses burgueses o caminho de redenção da sociedade, não à toa o messias da classe operária sai de um leito burguês, se tornando um sujeito que tem a função de iluminar racionalmente esses seres maquinais.

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*Maitêus é petropolitana, formada em História pela Universidade Católica de Petrópolis(UCP) e aluna do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Maitêus explica que a coluna ‘Cine Muda’ surge como uma forma de popularização da “sétima arte”, inserindo o leitor/internauta na história do cinema.

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