Circuito de rua: velocímetros e corações acelerados

10/08/2018 09:20

Se por um lado desafiar o perigo era o combustível dos pilotos, por outro, era a proximidade com a adrenalina que fazia o público se sentir vivo.  As marquises eram cobiçadas pelos milhares que delas faziam seus camarotes e, tão rápido quanto o avanço do ponteiro do velocímetro, eram os batimentos que, confundidos com o ronco dos motores, cresciam a cada curva. 

Num circuito de cerca de três quilômetros pelas ruas do Centro, o paralelepípedo se tornava a passarela dos pilotos, que finalizavam o percurso na Praça da Inconfidência. Entre a plateia, a disputa era pelos pontos estratégicos, que quase sempre se davam nas curvas, ou nas alturas. 

O produtor rural de 68 anos, Laerte Martins, é prova de que não se mediam esforços na busca pela vista privilegiada. "Quando eu tinha 11 anos assisti à corrida de cima dos andaimes de madeira altíssimos da obra da torre da Catedral de São Pedro de Alcântara. Eu gostava das ultrapassagens. Havia Fuscas, DKV, Alpha Giulia, Gordini, Simca, carros da época, mas todos, claro, com motores mexidos".

Ele revela que sua torcida ia para o piloto Jiquica Varanda, razão pela qual conheceu os circuitos. "Meu pai tinha um comércio na rua Paulina Afonso, em frente à rua onde morava a família do corredor Jiquica. Eu, garoto, escutava as conversas sobre corrida e comecei a frequentar".

O aposentado Gilson Silveira, de 80 anos, também tinha como destino certo as redondezas da Catedral, a que se refere como 'um ponto básico'. "Acompanhava tudo com muito afinco. Era um programa e tanto. Eu gostava de ver os Fusquinhas quando passavam por ali, se moviam como um pêndulo de relógio."

Apaixonado por rodas e apelidado de 'Professor Pardal' pela família, Gilson produziu desde cedo seus próprios brinquedos, chegando a fabricar, inclusive, karts para crianças. Nas corridas de rua, a presença do filho, Gilson Silveira Júnior, ainda pequeno, era certa. 

Hoje aos 51 anos, o restaurador e engenheiro mecânico lamenta não ter tantas lembranças da época. "Apesar de muito novo, os circuitos me marcaram. Até hoje quando eu vejo as fotos eu me pergunto: por que eu não era um pouquinho mais velho para me lembrar mais daquela movimentação, daquele tumulto?", expressa.


Paixão que corre nas veias

Uma vez dentro do macacão, difícil era sair dele. José Augusto Varanda, de 65 anos é filho do ex-piloto Aylton Varanda, que correu pela primeira vez no III Circuito de Petrópolis. Ele relembra histórias vividas pelo pai numa época em que a paixão pelo volante falava mais alto que a razão.

"Na primeira edição do 24 horas de Interlagos, em 1960, ele correu por nove horas seguidas. Precisou ser retirado do carro porque não conseguia ficar em pé. Os olhos lacrimejavam e as mãos tinham bolhas de sangue. A partir desse episódio, a Confederação Brasileira de Automobilismo passou a limitar a três horas o período máximo de cada piloto em corridas de longa duração".

Como explica José Augusto, fora as taças e troféus, não havia prêmio em dinheiro. Corria-se pelo prazer de correr e, embora não houvesse premiação, segundo ele, o circuito petropolitano, organizado pelos próprios corredores, era glamouroso, atraindo pilotos como Irineu Casini, Chico Landi e Fangio, além de pessoas de outros estados.

"Meu pai tentou, muitas vezes, o incremento da segurança, chegando a ir até o Governador do Estado. Estar nas corridas quando ele estava ao volante era uma mistura de adrenalina com preocupação. Sentíamos de perto o perigo e amadorismo. Às vezes os carros eram preparados até a madrugada que antecipava a prova. Os pilotos não dormiam e depois iam dirigindo para a própria corrida".

Formado em engenharia mecânica, José acompanhou o pai em circuitos e autódromos e, durante boa parte de sua adolescência, teve os mecânicos como melhores amigos. Hoje coleciona histórias, conquistas de Aylton e a certeza de que o automobilismo corre pelas veias da família Varanda.

O amor dos Varanda pelos automóveis era, de fato, contagiante. Bastou fazer parte da família para que Samuel Dunley, hoje aos 85 anos, se aventurasse como piloto. Ele foi casado com Alda Maria, irmã de Jiquica.

"A cidade respirava aquilo ali. Petrópolis sempre foi uma cidade de mecânicos, tanto que até hoje existem oficinas de carros de corrida e, vendo as competições, você acaba se interessando. Daqui o mais famoso era o Mário Olivetti. Era com quem procurávamos disputar", diz rindo.

Samuel conta que um dos exercícios de prática dos pilotos envolvia subir a Serra de Petrópolis à noite numa fila de carros em que apenas o primeiro deixava o farol aceso. E se para ele os desafios eram emocionantes, para a filha, nem se fala.

"São lembranças que o tempo não apaga. As corridas eram a sensação e a oportunidade de juntar toda a família. Eu, meus irmãos e primos ficávamos sentados na varanda na casa dos meus avós maternos, na antiga Avenida XV de Novembro. Cada hora que meu pai passava meu coração disparava: vai pai, vai pai!", revive a psicóloga Elda Varanda.

Da velha lataria, lembranças

Pensando em manter a história viva, o advogado Antônio Vilas Boas, de 72 anos, deu início a uma coleção de carros esportivos e de competição. Ele garante que um dos automóveis é o Bino Mark de número 21, usado por Carol Figueiredo no Circuito de Petrópolis, em 1968. 

Conhecida como a corrida que não terminou, a prova teve o sentido mudado para o anti-horário e deixou duas vítimas fatais: Sérgio Cardoso e 'Cacaio', o Joaquim Carlos Telles. Depois disso, os circuitos foram cancelados.

"Cheguei a ter 28 automóveis. Hoje tenho 15, entre eles o Bino Mark 21, que corria pela equipe Willys. O acidente em Petrópolis deixou o veículo completamente danificado e foi reconstruído. Da reconstrução participei da parte final. Inclusive, instalando uma mecânica semalhante à original", afirma.

Verde e amarelo, o veículo, nas palavras de Antônio, 'reviveu'. A lataria brilha e prende a atenção daqueles ao seu redor; remete aos tempos das corridas de rua, em que as máquinas, além de atrairem olhares, eram um convite à emoção.



Últimas