Com documentários e comédia, esporte na TV vai além das transmissões ‘ao vivo’

21/05/2021 07:00
Por Gonçalo Junior / Estadão

A programação esportiva das plataformas de streaming e das grades das emissoras de televisão está ganhando novos títulos e gêneros nos últimos meses. São documentários, perfis, conteúdos de entretenimento e até minisséries que podem ser vistas nas inúmeras telas que povoam nossa vida. Hoje, esporte vai muito além das transmissões “ao vivo”.

O fenômeno é recente. Foi apenas em fevereiro, por exemplo, que Pelé ganhou um documentário na Netflix, plataforma de filmes e séries via streaming com mais de 208 milhões de assinantes. Dirigido por David Tryhorn e Ben Nicholas, o filme narra a transformação do jovem craque da Copa de 1958 em “herói nacional durante uma era radical e turbulenta da história brasileira”. Com o desafio de contar uma história já narrada diversas vezes, a peça mostra a influência da ditadura na carreira do Rei.

A série “Doutor Castor”, da Globoplay, também lançada em fevereiro, conta a história de Castor de Andrade, importante cartola, bicheiro e patrono de escola de samba carioca que teve uma vida marcada por excessos e inúmeros crimes e contravenções. O primeiro episódio foi exibido no canal SporTV, que tradicionalmente aposta na cobertura jornalística e nas transmissões dos eventos esportivos.

Bruno Maia, especialista em inovação e novos negócios na indústria do esporte, afirma que o título é um exemplo de como esporte pode gerar conteúdos de cinema e representar uma opção de entretenimento para os espectadores. “O futebol sempre foi acompanhado pelo viés do ao vivo, ou seja, através das transmissões dos jogos. Isso está mudando”, afirma o autor do livro “Inovação é o Novo Marketing”.

Nesse contexto, o esporte virou até pano de fundo para uma comédia. Há duas semanas, o canal por assinatura TNT começou a exibir a série Galera FC, parceria entre a produtora A Fábrica e a WarnerMedia. A série narra a vida de um jogador de futebol que atua na Europa, mas vive uma crise de identidade e decide voltar ao Brasil. Isso desestabiliza todo mundo ao seu redor: família, staff e os “parças”. O protagonista Elton Jr, interpretado pelo ator Maicon Rodrigues, sintetiza várias faces conhecidas dos astros do futebol. Tudo com bom humor.

“Temos dois eixos cômicos principais: a crítica da cultura das subcelebridades pop e a crônica da rotina de uma família disfuncional. A ideia surgiu da nossa paixão por futebol e da vontade de armar uma narrativa cômica com estes elementos”, explica o diretor Luiz Noronha.

Com oito episódios de 30 minutos, o seriado já tem segunda temporada garantida. “O que mais chamou a nossa atenção foi o fato de ser a história de um jogador de futebol. É algo que acompanhamos tanto, mas que nunca paramos para ver o seu ponto de vista”, explica Silva Fu Elias, diretora de conteúdo da WarnerMedia Brasil.

Especialistas apontam que os novos formatos aproximam o esporte do novo modelo de consumo de entretenimento em alta na sociedade. “Hoje, nosso consumo é direcionado pelos interesses individuais, pelos nichos. Com esses novos títulos, o futebol se insere numa lógica de distribuiçãço de consumo que nós já praticamos”, avalia Maia.

“O esporte ao vivo é focado em ‘heavy users’, aqueles que acompanham e querem ver o jogo completo. Os documentários, nem tanto. Eles podem ser consumidos tanto pelos grandes fãs quanto por pessoas que não costumam acompanhar aquele esporte retratado na série, filme ou documentário”, completa Guilherme Figueiredo, CEO da TV Nsports.

NOVOS HÁBITOS – A pandemia do novo coronavírus motivou novos hábitos de consumo. Toda a indústria do entretenimento se tornou mais virtual, remota e transmitida sob demanda. No primeiro mês após a Organização Mundial da Saúde declarar pandemia global, só a Netflix conquistou mais de 16 milhões de novos assinantes. Neste período, o segundo seriado mais visto foi “The Last Dance”, produção conjunta com a ESPN sobre o astro Michael Jordan, um dos maiores ícones na história do esporte, e a sua bem-sucedida equipe, os Chicago Bulls nos anos 90. O documentário se tornou o mais visto da história da ESPN, com mais de 5,8 milhões de espectadores no primeiro episódio.

O sucesso foi tão grande que revigorou a marca. As vendas de produtos do Chicago Bulls cresceram 5000% depois do lançamento da série. Segundo a operadora da LojaNBA.com no Brasil, a Netshoes registrou um aumento de 650% das vendas dos itens relacionados aos Bulls.

Essa lógica também se repete com os clubes de futebol. Em 2019, o Flamengo fechou parcerias para produção de conteúdo sobre a trajetória vitoriosa do clube com as plataformas DAZN, Globoplay e Amazon. O SporTV exibiu a série “Acesso Total” com os bastidores da temporada 2020 do Corinthians, inspirado em programas como o “Sunderland Til I Die”, que revela os bastidores de um clube da 3ª divisão inglesa na Netflix.

Comandado por Victor Pozella e Edgar Alencar, o conteúdo revela a rotina e os bastidores da preparação de um clube da elite. Logo nas primeiras cenas, os jogadores do Corinthians descobrem e até estranham as câmeras. Centro de Treinamento, sala da diretoria e até do vestiário da Neo Química Arena. A temporada de 2020 para o time paulista também mostra os desafios impostos pela pandemia do novo coronavírus. O Estadão apurou que não houve interferência da diretoria no projeto, mas produtores e responsáveis pela série deveriam manter os protocolos contra a covid-19.

No início do mês e março, a estreia do documentário “Acesso Total” rendeu ao SporTV a liderança entre os canais esportivos da TV fechada, com mais do que o dobro de audiência do que o segundo colocado.

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