Eventos-teste mostram como será a superbolha anticovid da Olimpíada de Tóquio

21/05/2021 14:05
Por Raphael Ramos / Estadão

Exames diários para detectar o novo coronavírus, arquibancadas vazias, refeições apenas dentro do quarto do hotel, monitoramento para pegar o elevador, aplicativo de controle de localização… essa foi a rotina de brasileiros que participaram de eventos-teste em Tóquio nos últimos dias e que já foi encarada por uma prévia da realidade que os competidores terão nos Jogos Olímpicos, a partir de 23 de julho. A ideia é que a Olimpíada seja disputada em uma espécie de “bolha” com os atletas isolados do restante da cidade.

“Fizemos os testes de saliva todos os dias e não podíamos sair do nosso andar no hotel nem aglomerar nos quartos. Acredito que tudo tenha sido uma espécie de ensaio para a Olimpíada. O esquema de controle para evitar a disseminação do vírus estava muito bem organizado, tudo certinho”, conta Kawan Pereira, que participou no início do mês da Copa do Mundo de Saltos Ornamentais, evento Pré-Olímpico da modalidade, e garantiu vaga nos Jogos de Tóquio.

Os atletas só estavam autorizados a sair do quarto do hotel para buscar as refeições no corredor e eram obrigados a fazer todas as refeições dentro do dormitório. Quando tinham que se deslocar para treinar ou competir, havia uma pessoa que ficava na frente do elevador e era a responsável por, via rádio, comunicar a recepção do hotel sobre a movimentação dos hóspedes.

Na verdade, os rígidos protocolos de controle da covid-19 começaram bem antes do desembarque no Japão. “14 dias antes da viagem, tivemos de baixar um aplicativo e preencher todos os dias a temperatura, se tinha algum sintoma, se teve contato com alguém que testou positivo e se fez alguma viagem ou saiu para algum local. Lá no aeroporto no Japão, eles também pedem para a gente baixar um outro aplicativo para mandar a nossa localização e fazem uma ligação de vídeo pelo WhatsApp para o caso de precisarem entrar em contato. A gente também recebeu e-mail todos os dias perguntando se você ou alguém que está com você teve algum sintoma”, recorda Pedro Ivo Almeida, fisioterapeuta da seleção brasileira de saltos ornamentais, que fez parte da delegação que esteve no Japão.

Durante as duas semanas em que a equipe brasileira participou da Copa do Mundo em Tóquio, ninguém testou positivo. “O que mais chamou atenção foi o teste no qual você depositava a saliva em um pote. Assim que chegamos no aeroporto já tivemos de fazer. É um teste que não tem nenhum tipo de desconforto em comparação, por exemplo, com o PCR (quando um bastão é inserido em uma das narinas). Para quem é testado todo os dias, é um conforto a mais. É mais prático e rápido”, diz Isaac Souza. O saltador conquistou vaga para os Jogos no evento em Tóquio, mas na semana passada a Federação Internacional de Natação (Fina) alterou as regras e comunicou a sua desclassificação. O Comitê Olímpico do Brasil (COB) ainda tenta reverter a decisão.

Sem exceção, a rotina dos integrantes da delegação brasileira se limitava ao quarto de hotel e as piscina do moderno Parque Aquático de Tóquio, estrutura construída especialmente para os Jogos ao custo de 56,7 bilhões de ienes (R$ 2,6 bilhões). Localizado na baía de Tóquio, o espaço tem capacidade para 15 mil espectadores e receberá provas de natação, nado sincronizado e saltos ornamentais. Uma de suas peculiaridades é uma parede modular que permite transformar a piscina principal de 50 metros em duas separadas de 25 metros cada. A profundidade das piscinas também pode ser alterada.

“O Parque Aquático é excelente, não tem do que reclamar. A plataforma é muito boa. A piscina é aquecida e o local é fechado e climatizado. Não existem interferências externas, como vento e chuva”, analisa Isaac. Até mesmo dentro do Parque Aquático, no entanto, a circulação de atletas, integrantes das comissões técnicas e funcionários foi rigidamente controlada para minimizar o contato e maximizar a distância física.

Tóquio tem realizado nos últimos dias eventos-teste de atletismo, vôlei, ginástica artística, basquete 3 x 3, natação e ciclismo, para avaliar as instalações das arenas e, principalmente, os protocolos sanitários. De acordo com os organizadores, mais de 700 atletas e 6 mil funcionários participaram dos eventos-teste. Nenhum caso positivo foi detectado durante o período de competição. O único registro de covid-19 foi de um técnico que participaria da Copa do Mundo de Saltos Ornamentais e testou positivo na chegada ao aeroporto de Tóquio. Ele foi colocado em isolamento para cumprir quarentena.

Para os Jogos Olímpicos, o Comitê Organizador ainda não decidiu se será permitida ou não a presença de público nas arenas. O que já está certo é que torcedores e voluntários estrangeiros estão vetados.

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