O vírus e a China

28/03/2020 07:00

Caiu por terra a teoria da conspiração que dizia haver um complô chinês para sabotar a economia mundial através da disseminação do coronavírus. Estudos científicos comprovaram que o vírus não foi criado artificialmente em laboratório. Ele veio da natureza, transmitido de animais a humanos. De todo modo, a responsabilidade chinesa, em momento oportuno, precisa ser averiguada. Pois é, no mínimo, culposa. Termo jurídico que significa mais ou menos o “sem querer querendo”, do seriado Chaves. Não queria aquele resultado, mas pôs-se em risco de obtê-lo. Em contraponto a responsabilidade “dolosa”, quando se age querendo conscientemente um resultado criminoso.

Corre por aí, ainda dentro da teoria da conspiração, a indagação: por quê tantas doenças graves e exóticas têm origem na China? A peste negra do século XIV, a gripe aviária, a gripe suína e, agora, a Covid-19. A explicação científica mais plausível dá conta de que, por conta da sua historicamente gigantesca população, a China padeceu sempre dificuldades de alimentar tanta gente. Isso se teria agravado na Grande Fome dos começos desastrados do regime de Mao Tse Tung, nos anos 1950. Daí a opção gastronômica de multidões de famélicos por animais silvestres, exóticos, incomuns nas mesas ocidentais. Em algum ponto da história, isso virou também opção gourmet de aventureiras mesas chiques. Então, grande parte dos chineses consome pratos à base desses animais, e estrelas-do-mar, ninhos de pássaros, cobras de todos os tipos, lacraias, répteis, enguias, hamsters, cães, gatos, centopeias, ratos e morcegos. Suspeita-se que a transmissão inicial do coronavírus teria se dado pelo consumo humano de uma sopa de morcegos no mercado de Wuhan, primeiro epicentro da pandemia.

O problema é que depois da pandemia de Sars, em 2002, com gênese parecida com a situação de agora, a China foi pressionada a tomar atitudes contra esse tipo de mercado de animais silvestres e pratos exóticos. Então os proibiu. Mas a severidade da medida se manteve por apenas seis meses. Os mercados reabriram e a festa gastronômica bizarra recomeçou. Agora o mundo inteiro paga o altíssimo preço de tal negligência. Por conta do coronavírus, hoje os tais mercados estão novamente fechados. Então o que deve ser cobrado da China, com todo vigor, pelas lideranças mundiais, é que tais mercados sejam definitivamente proibidos, que seja criminalizado o comércio e consumo desses animais silvestres que já originaram tantas enfermidades.

Diante dos protestos indignados de Trump, a China ainda tentou impor sua própria teoria da conspiração, atribuindo a origem do vírus a um experimento americano. Mas não colou. Então, a negligência chinesa deve ser cobrada, quando as coisas se acalmarem. Certo que já agora – em missão tanto de caráter humanitário, quanto de relações públicas – especialistas que se fizeram na Covid-19, os chineses andam espalhando bem-vindos auxílios e apoios pelo mundo, emprestando expertise, equipamentos e pessoal da área de saúde. Mas é inegável que poderão, sim, ser beneficiados pela crise econômica que virá. Então, nada mais justo que futuramente promovam alguma forma de reparação econômica. Não é fácil, dada a dependência mundial do motor que se tornou a economia chinesa. Mas a pressão internacional deveria cobrar respostas e medidas do governo chinês.

Enquanto isso, por aqui, que o governo apresse medidas de socorro aos que sofrerão com a crise econômica. No mais, fique em casa. Água e sabão. Mantenha a fé. Coragem!

denilsoncdearaujo.blogspot.com

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