Os militares e a esquerda

28/12/2015 10:00

Gastão Reis

Empresário e economista     


A presença de militares na esfera política é uma velha tradição latino-americana com efeitos danosos para suas economias. O Brasil do século XIX foi uma exceção. Os políticos do Império defendiam com unhas e dentes a primazia do poder civil. Tinham plena consciência dos estragos causados nos países de língua espanhola de seu tempo pela presença das forças armadas em setores que não lhes diziam respeito. Irmanavam-se a Thomas Jefferson que, em seu discurso de posse, em 1801, expressava uma questão de princípio cara aos americanos até hoje: a supremacia da autoridade civil sobre a militar. Ainda me lembro de um episódio da época em que estudava na Universidade da Pensilvânia por volta de 1980. Um militar americano, que dava expediente na Casa Branca, fez uma declaração considerada de cunho político por seus superiores civis. No dia seguinte, promoveram uma festinha de despedida, designando-o para um posto no Alasca. Assim mesmo, curto e grosso.

 Um exemplo emblemático dos malefícios da mentalidade militar na esfera econômica foi a carta de Juan Domingos Perón enviada a Carlos Ibáñez, então presidente do Chile. Acompanhe, caro leitor, a pérola: “Meu caro amigo: dê ao povo tudo que for possível. Quando lhe parecer que está dando muito, dê mais. Você verá os resultados. Todos irão lhe apavorar com o espectro de um colapso econômico. Mas tudo isso é uma mentira. Não há nada mais elástico do que a economia, que todos temem tanto porque ninguém a entende”.

Na verdade, quem entendia muito pouco de economia era o próprio Perón. Foi ele quem iniciou um processo de involução econômica que perseguiu a Argentina por meio século. Trata-se de um triste caso clássico, citado na literatura econômica mundial, dos efeitos do populismo para arrasar com a economia de um país que era considerado praticamente desenvolvido até a chegada dele ao poder. Torço, mesmo, para que o recém-empossado presidente Macri consiga colocar a casa em ordem. Interessa a todos: ellos y nosotros. 

Vivemos um momento especialmente amargo para o povo brasileiro em que estamos sentindo na pele que a economia não é tão elástica assim, como supunha a vã “filosofia” peronista. E podemos completar: lulista e dilmista. Inflação fora de controle, desemprego rompante, salário real encolhendo, dívida pública na estratosfera, desmandos de toda ordem na política e na economia. Receita perfeita para a vaca se atolar mais ainda no brejo. Não satisfeitos com mais um ano perdido, colocam no lugar de Levy o sr. Nelson Barbosa, ardoroso fã da nova matriz econômica, a receita, digamos, de cunho peronista, que nos levou para a situação lastimável em que nos encontramos. Seu passado o condena quando se trata de fazer o ajuste indispensável que Macri está tendo a coragem (e com sucesso até aqui) de pôr em andamento na Argentina.

Qual seria, então, a ligação dos militares com a esquerda em matéria de economia? Ambos têm um caso de amor com a economia de comando em contraposição à de mercado, que exige liberdade. Os primeiros por formação, a segunda por desconhecer o que funciona em economia. Os militares sempre se encantaram com o desejo de darem ordem unida na economia, coisa pela qual a esquerda tem um apreço todo especial. Não deixa de ser sintomática a semelhança entre Dilma e Geisel quando se trata de meter o nariz do governo na economia com os resultados danosos de ontem e hoje. 

Já deu para constatar que ambos pensam ser possível tratar a economia na base do chicote. Felizmente, a economia de mercado tem um (saudável) caso de amor com a liberdade de ação, que é a garantia das liberdades políticas tantas vezes desrespeitadas pelos militares e pela esquerda, em especial a comunista. A bem da verdade, cabe ressaltar o caso do Chile onde a esquerda não desmantelou a política econômica anterior ao chegar ao poder. E não porque aprovasse o regime militar chileno, mas por se recusar a ser refém do populismo que tanto mal causou à Argentina e a nós nos últimos anos.

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